terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Prof. Rafael José Pôncio - Marsílio Ficino, o homem que fez a Europa renascer

Na série de artigos sobre 'Grandes Empreendedores da História' acostumo a retratar grandes ícones do empreendedorismo, administração, inovação e invenções, não é mesmo? E, de certo modo, ser empreendedor tornou-se sinônimo de alguém focado em estratégias para ter seus negócios bem sucedidos, economicamente falando.

Entretanto, ao retornarmos à raiz desta palavra encontraremos o seguinte significado: tentar executar uma tarefa. Advinda do latim, ela remete-se a realizar algo. No mundo empresarial isso tornou-se uma qualidade para as pessoas que enxergam oportunidades e criam novos cenários a partir de suas percepções. Porém, será que existe empreendedorismo fora de uma lógica de mercado? 

Se expandirmos nossa visão sobre o que é ser de fato empreendedor, a resposta é sim. Ao longo da História, como é a proposta da nossa série, uma grande parcela de pessoas buscaram inovar e, em alguns casos, resgatar antigos valores humanos, ideias e técnicas que estavam perdidas no tempo. Graças a esses homens e mulheres do passado, ainda hoje não apenas podemos estudar acerca destes aspectos, mas, em alguns casos, a forma de pensarmos e gerirmos nossas vidas foram alteradas a partir destes resgates. Esse é o caso do nosso personagem de hoje: Marsílio Ficino, o homem que fez a filosofia antiga renascer na europa medieval.

O homem por trás do Mecenas e o mundo medieval 

Nascido na região da Toscana em 1433, Marsílio Ficino foi, antes de tudo, um homem de visão. Como profissão foi banqueiro, pintor, filósofo e, principalmente, empreendedor. Porém, para entendermos a contribuição de Ficino para o mundo e seu lugar nessa série é necessário, antes de tudo, conhecermos um pouco do contexto histórico em que o rico filósofo florentino viveu: a Europa do século XV. 

Como sabemos, esse foi um período marcado por diversas mudanças na sociedade medieval: As cidades e o comércio voltaram a prosperar após séculos presos no sistema feudal; no campo científico novas descobertas passaram a colocar em xeque os dogmas da Igreja Católica; na arte o Renascimento passou a ser um fator de mudança de estilo e paradigmas, tendo novos temas a serem desenvolvidos e técnicas de pintura e escultura a serem testadas. Aproveitando desse novo momento, uma série de indivíduos passaram a financiar artistas, das mais variadas artes, para que estes pudessem demarcar definitivamente a mudança de mentalidade na Europa. Um destes mecenas foi Marsílio Ficino, um rico banqueiro da cidade de Florença. 

O diferencial de Ficino no mundo repleto de mudanças em que viveu foi o de ter resgatado centenas de obras filosóficas, até então perdidas para a Europa. Durante o início da Idade Média autores como Platão, Aristóteles e tantos outros pensadores da antiguidade tiveram grande parte de suas obras destruídas. Entretanto, ainda na antiguidade seus livros e ideias tinham chegado até o Oriente, principalmente pelas rotas comerciais que existiam entre os dois “mundos” desde os tempos antigos. Os tratados desses grandes pensadores foram traduzidos, na antiguidade, para as línguas árabe e persa e lá foram bem disseminadas, enquanto na Europa, ao longo de quase um milênio, elas foram sistematicamente destruídas. 

Assim, após o fechamento das escolas de filosofia e destruição das bibliotecas que continham o conhecimento “pagão” dos gregos e romanos, quase nada restara no campo filosófico na época medieval. As poucas obras restantes, em geral fragmentos de livros e obras de filósofos cristãos, eram a base de estudo para o clero medieval. Observando a carência nesse campo, Marsílio resolveu dedicar sua vida ao resgate dessas obras clássicas. Diferente de um mecenas comum da época, ele não financiou artistas, mas grande parte da sua fortuna foi direcionada para a compra desses tratados de filosofia que estavam no Oriente. 

Os desafios e recompensas de Ficino 

O primeiro desafio enfrentado por Marsílio foi conseguir encontrar as obras. Não bastava apenas comprar um manuscrito em árabe, mas sim o mais antigo dentre os existentes, pois o banqueiro florentino sabia que um livro copiado diversas vezes teria diversas alterações quando comparado ao original. Dessa maneira, o próprio Marsílio financiou uma série de tradutores e mercadores à procurarem em todo o império árabe por estes antigos escritos. 

Após a aquisição a peso de ouro - algumas obras chegaram a custar o preço de pequenas fortunas - o próximo passo foi o de traduzir tais obras para o latim, grego e demais línguas faladas na europa renascentista. As principais traduções foram, naturalmente, para o latim, uma vez que era a língua ainda mais difundida por todo o continente. Desse modo, uma equipe com dezenas de tradutores foi contratada e supervisionada por Marsílio para conseguir transpor o conhecimento. 

Pensando sobre isso, devemos destacar a persistência de Ficino com o seu objetivo, uma característica intrínseca para um empreendedor. Persistir em um empreendimento, seja de que natureza for, é saber que a semente que foi plantada dará seus frutos, mesmo que a colheita seja demorada. No caso do banqueiro, da aquisição de uma obra até sua tradução levou-se anos, em alguns casos décadas, para que seu objetivo fosse realizado. O mais interessante, e que para os dias atuais não faz o menor sentido, é que, no fim, ele não obteve absolutamente nenhum retorno financeiro com isso. 

As suas traduções, em grande parte, foram destinadas à bibliotecas particulares e públicas, e não foram vendidas de modo a obter lucro. A recompensa de Marsílio foi dar a oportunidade das ideias dos grandes filósofos serem novamente estudadas pelas gerações de europeus que estavam por vir. Graças ao seu esforço hoje é possível estudarmos sobre as ideias de Platão, Plotino, Sócrates e tantos outros pensadores. Para além disso, as obras de Ficino garantiram, durante os séculos seguintes, o desenvolvimento de grandes obras nas mais distintas áreas do conhecimento.

Portanto, o grande valor do empreendimento desenvolvido por Ficino não está no lucro monetário, mas sim em algo ainda mais valioso e que têm-se pouco reconhecimento nos dias atuais: o conhecimento. Suas traduções tiraram de vez a Europa da “Idade das trevas”, impulsionando novas gerações de pensadores a se desafiarem e irem além do que já se sabia. Talvez, no fundo, esse seja o nosso grande papel enquanto empreendedores: possibilitar que as novas gerações possam chegar mais longe, abrindo novos caminhos para avançarmos ainda mais enquanto civilização. 

Bom trabalho e Grande abraço! 

Prof. Adm. Rafael José Pôncio



        Reprodução permitida, desde que mencionado o Nome do Autor e o link fonte.       

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