quinta-feira, 1 de abril de 2021

Prof. Rafael José Pôncio - Marco Polo, o Mercador de Veneza


Costuma-se pensar que empreender significa, necessariamente, inventar novos métodos ou instrumentos que melhorem nossa qualidade de vida. Sem sombra de dúvidas, em parte, essa é uma afirmação correta, afinal, empreendedores estão sempre encontrando maneiras de melhorar seus negócios e, consequentemente, a vida das pessoas à sua volta. Porém, se nos limitarmos apenas à criação de novos objetos como forma de empreender estaremos, infelizmente, fadados ao esgotamento. Uma hora passaríamos, invariavelmente, a criar objetos inúteis e que não seriam necessários para quase ninguém.

Por isso que devemos enxergar o empreendedorismo não apenas como a capacidade de inovação a partir da criação de algo novo, mas também como a capacidade de reinventar-se em novos cenários utilizando algo que já existe no mundo. Um bom empreendedor é capaz, por exemplo, de observar o passado e resgatar ideias que funcionaram em determinado período e adaptá-lo em nossos tempos. Infelizmente, essa mentalidade reside em poucos empreendedores, uma vez que olhamos para a história como algo “arcaico”, uma terra infértil que jamais dará bons frutos a quem a semear.

Pensando nisso, hoje na série “Grandes Empreendedores da História” trago um homem de negócios que mudou o comércio mundial a partir de suas explorações, reinventando uma antiga ligação comercial entre o Ocidente e o Oriente. Falarei de Marco Polo, o mercador de Veneza.

O comércio como negócio de família


Todos nós, em maior ou menor grau, já escutamos falar das aventuras de Marco Polo. Entretanto, pouco sabemos sobre sua trajetória e dificuldades para empreender tais aventuras. Nascido na república de Veneza por volta de 1254, os primeiros anos da vida de Marco Polo nos são desconhecidos em detalhes, mas o que sabemos a partir de historiadores é que o mercador de Veneza tem o comércio em seu sangue: seu pai, Niccolò Polo, já era um comerciante de prestígio em algumas cidades da Europa, principalmente Constantinopla, que era a porta de entrada para o Oriente no século XIII. Junto com seu tio Metteo - uma grande inspiração para Marco Polo, vale ressaltar - os dois irmãos alcançaram a riqueza trazendo produtos do “Oriente próximo” (atual região da península arábica).

Assim, pode-se deduzir que desde cedo o jovem Marco Polo foi iniciado no mundo do comércio. Porém, não podemos esquecer do mundo e contexto histórico em que Marco Polo e seus familiares viviam. A mentalidade religiosa, própria da Idade Média, recriminava a prática do comércio, sendo, segundo os dogmas da Igreja, uma das profissões mais indignas que poderiam existir. A prática não era proibida, porém, nenhum eclesiástico enxergava um mercador com bons olhos. Dizia-se que o acúmulo de bens configurava um pecado mortal, a avareza, além de não ser reconhecida como uma maneira digna de ganhar a vida.

O primeiro grande desafio de Marco Polo, portanto, foi o de enfrentar o estigma que carregava em sua profissão. Esse fardo, como sabemos, não foi exclusivo do nosso grande empreendedor, mas nos faz refletir sobre uma característica necessária para toda pessoa que decide empreender: a de enfrentar o julgamento alheio. Quando abrimos um negócio é comum que não recebamos apoio e, não raramente, as pessoas que mais confiamos são aquelas que não acreditam em nossos planos. Assim, desde cedo devemos aprender a não desistir e, além disso, não dar atenção aos comentários negativos e julgamentos das outras pessoas. A convicção e determinação são, nesses casos, fundamentais para continuarmos progredindo em busca de realizar nossas metas.

Reconectando Ocidente e Oriente


Outro ponto marcante na trajetória de Marco Polo foi a retomada da antiga “Rota da Seda”, o percurso que os mercadores gregos e romanos faziam para comercializar com o Oriente. Devido ao sistema de organização feudal, que perdurou até meados do século XV, o comércio durante a Idade Média tornou-se uma prática quase inexistente. A maior parte da população refugiou-se nos feudos e o trabalho rural tornou-se o mais comum e praticado entre as pessoas. As cidades, chamadas de burgos, ficaram vazias e desprotegidas, sendo um local pouco atrativo para novos negócios. Assim, com o passar dos séculos, as rotas comerciais que eram bem estabelecidas por toda a Europa foram fechadas, tornaram-se desconhecidas para a maior parte população e o contato entre as diversas culturas advindas do Oriente foi perdido.

Visto isso, o papel de Marco Polo ao lançar-se para a Ásia em busca de novos mercados, junto com seu pai e seu tio, foi fundamental para restabelecer o comércio para toda a Europa. A bem da verdade, o mercador de Veneza não foi o primeiro a fazer essa longa viagem - a de Marco Polo durou 24 anos, segundo seu relato - pois desde o século XI, com o advento das cruzadas, já haviam contato e trocas entre árabes e Europeus. Marco Polo, porém, foi mais longe em sua jornada, chegando até a corte de Kublai Khan, na China. Além disso, Marco Polo foi o primeiro a escrever sobre suas aventuras e mostrar as verdadeiras relíquias que existiam na China, Índia e demais regiões do continente Asiático.

O vislumbre do mercador de Veneza pela China fez com que milhares de comerciantes retornassem a usar essa antiga rota, trazendo prosperidade e lucro para as cidades. Em última instância, esse foi um passo decisivo para a mudança de mentalidade que ocorria pouco tempo depois a partir do renascimento. Aqui percebemos o papel de Marco Polo como empreendedor, pois não bastou para se ir até os reinos da China e trazer suas especiarias, mas ele percebeu uma oportunidade de novos negócios surgirem a partir dessa ligação. O esforço de Marco Polo, após completada sua jornada, foi a de estimular novas caravanas para explorar e desbravar esse “novo” e “desconhecido” local para os europeus medievais.

A narrativa de Marco Polo contida no “livro das maravilhas do mundo” inspirou, séculos após sua morte, centenas de navegadores a se lançarem ao mar e descobrirem novas rotas para o Oriente. Assim nascia a “Era das descobertas” e da navegação ultramarina, empreendimentos tão grandiosos que levaram milhões de homens e mulheres ao mar em busca de novos mercados. Tudo isso graças às histórias de Marco Polo e seu exemplo de que o comércio entre Oriente e Ocidente era, mais uma vez, possível.

Objetivamente, inclui Marco Polo nessa seleta lista de empreendedores que mudaram a história pelo fato dele não se contentar apenas em criar um negócio para si, como tantos outros mercadores da época. Sua visão de integrar novos mercados e trazer prosperidade ao seu reino fez com que as antigas rotas voltassem a circular e conectar mundos tão distintos a nível cultural, mas que puderam partilhar de uma troca comercial benéfica a ambos. Sua visão empreendedora, aliada com sua convicção em arriscar-se em explorações longínquas e por não deixar ser desacreditado pela opinião pública tornou seu sucesso possível.

Por tais pontos, afirmo Marco Polo como um dos maiores empreendedores da História. Ele, diferentemente dos outros que tratei até aqui, não inventou algo, mas revisitou o passado e recriou um sistema de trocas comerciais que pôde, mais uma vez, retirar a economia medieval da obscuridade e trazer prosperidade para milhares de comerciantes.

Bom trabalho e grande abraço!

Prof. Adm. Rafael José Pôncio



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